Sexta-feira, 29 de Maio de 2009

Hagamos un Trato - Benedetti

Há poucos dias, faleceu Mario Benedetti: uruguaio, poeta, de esquerda, militante Tupamaro. Abaixo, um de seus poemas.


HAGAMOS UN TRATO

Compañera
usted sabe
que puede contar
conmigo
no hasta dos
o hasta diez
sino contar
conmigo

si alguna vez
advierte
que la miro a los ojos
y una veta de amor
reconoce en los míos
no alerte sus fusiles
ni piense qué delirio
a pesar de la veta
o tal vez porque existe
usted puede contar
conmigo

si otras veces
me encuentra
huraño sin motivo
no piense qué flojera
igual puede contar
conmigo

pero hagamos un trato
yo quisiera contar
con usted
es tan lindo
saber que usted existe
uno se siente vivo
y cuando digo esto
quiero decir contar
aunque sea hasta dos
aunque sea hasta cinco
no ya para que acuda
presurosa en mi auxilio
sino para saber
a ciencia cierta
que usted sabe que puede
contar conmigo

Quinta-feira, 5 de Fevereiro de 2009

o critério básico de Adão Preto


Adão Pretto não era o parlamentar padrão, que conhecemos. Não gostava da tribuna. Mas estava presente em todas as lutas sociais que se realizaram nesses últimos vinte anos. E as fazia repercutir no parlamento, na forma de leis ou de denúncia. Sempre o mesmo. Simples. Com uma coerência impressionante. Nunca titubeou. O critério básico que usava em sua vida e na participação política, era se perguntar, o que interessa aos trabalhadores? E independente de tudo, os defendia. Tambem, deu exemplo na sua forma de fazer campanha política. Nunca aceitou receber nenhum centavo de ajuda financeira de nenhuma empresa. Por mais que seus colegas debochassem de perder oportunidades de receber polpudas ajudas das Aracruzes, Vales, e outros corruptores.

fragmento de texto de João Pedro Stédile

Domingo, 1 de Fevereiro de 2009

Sport Club Internacional: uma história em disputa


No ano do centenário do glorioso colorado, a imprensa e o próprio clube repetem a versão “oficial” sobre sua origem: o nome teria sido escolhido pelo fato de alguns de seus fundadores terem jogado em um time chamado Internacional(1), em São Paulo; a cor, pela simpatia da maioria deles pelo bloco de carnaval de rua (os Venezianos). O Indo na Couve não corrobora esta versão; leia o texto abaixo, do historiador Rubim Aquino(2), e entenda o porquê.

"Você sabia que somente no Brasil existem cerca de doze clubes de futebol com o nome de Internacional? E se lhe dissermos que esses clubes surgiram no início do século XX e que quase todos eles têm a camisa vermelha?


A sua curiosidade aumentou, não?


De todos esses clubes, o mais conhecido é o Internacional de Porto Alegre, chamado de colorado, para não popularizar a palavra vermelho!


Será do seu conhecimento que a Internacional de Milão, durante o governo fascista de Benito Mussolini, teve de mudar o nome para Ambroziana e trocar o vermelho da camisa pela cor preta que era a usada nos uniformes do Partido Fascista?


Em Portugal, durante a ditadura fascista de Oliveira Salazar, não se podia dizer que a camisa do Benfica era vermelha. Toda a imprensa recebeu ordens expressas de somente se referir à camisa do Benfica usando as expressões grená e encarnada.


Será que você ainda não descobriu por que a preferência ou restrições a respeito da cor vermelha e pela palavra internacional?


A resposta é simples!


Foi que no início do século atual as idéias socialistas começavam a se popularizar e desde o século XIX o vermelho tornou-se o símbolo da revolução socialista! Além do mais, a necessidade de melhor organizar o movimento operário – Marx inclusive havia lançado a idéia da união revolucionária: “Proletários de todo o mundo, uni-vos!” – resultou na Associação Internacional dos Trabalhadores, ou simplesmente Internacional."

1 Mesmo que o Internacional de São Paulo tenha influenciado, isso não nega a influência do movimento internacionalista: é evidentemente grande a possibilidade de o clube de São Paulo ter sido influenciado por essa idéias. Inclusive, há relatos de que os conceitos democráticos avançados para a época e que apareceram desde a fundação do Inter existiam também no clube paulista.
2 AQUINO, Rubim Santos Leão de. Fazendo a história: a Europa e a América no século XX. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1986.
CRÉDITO IMAGEM: Comunidade "Internacional Socialista" (orkut)

Terça-feira, 27 de Janeiro de 2009

PT/RS e Busatto: em busca da política



Zygmunt Bauman, sociólogo polonês, em seu livro Em busca da política (Jorge Zahar Editor), lá pelas tantas reflete sobre a afirmação de Castoriadis, filósofo grego, de que o grande problema enfrentado por nossa civilização é o fato de que ela parou de se questionar.

Contribui para o isso o liberalismo que nos dias de hoje se resume a um credo que louva e promove o conformismo, à medida que busca fazer com que acreditemos que não há alternativa.

O polonês provoca: mas como não nos conformarmos, com essa política em que já não existe programa, em que os políticos são impotentes e cujo único objetivo é se manter nos cargos? Como não se conformar, se os políticos de todas as cores falam e prometem as mesmas coisas?

Bauman e Castoriadis desejam uma política em que mudanças de governo e de campo político signifiquem um divisor de águas, não uma simples ondulação na superfície de um rio a correr sem parar, monotonamente, com sombria determinação, em seu leito, levado por seu próprio ímpeto.

Recentemente, tivemos mostra dessa despolitização da política. A fala a seguir é de Jairo Jorge, prefeito de Canoas, sobre a reação do PT/RS à nomeção de Busatto como seu assessor (Zh 20/01/2009):

"Não me subordino nem concordo. O PT sai com uma imagem que não é boa. Meu gesto as pessoas de bom senso vão entender. O PT que eu desejo não é o PT do isolamento, é o PT que tenha capacidade, sim, de construir um novo bloco político humilde, sem arrogâncias com seus parceiros. A política gaúcha se movimenta nos últimos 15 anos sobre a lógica do paradigma do conflito, do ódio, do nós e eles."

Jorge demonstra não compreender o que significa projeto político distinto. Ou programa. Confunde-os com arrogância e ódio...

Nesses tempos em que mais do que nunca é importante repetir o óbvio, com a fala Raul Pont:

"A trajetória política do ex-deputado Cezar Busatto entra em contrariedade com o projeto político-ideológico, e com a forma que pensa e age o Partido dos Trabalhadores em suas administrações no Executivo e na Assembléia Legislativa."

Didático, não? O conflito ideológico, o debate entre diferentes concepções de mundo, o enfrentamento entre projetos políticos não são aberrações... pelo contrário, são características fundamentais para que possamos seguir adiante em busca da política.

Quinta-feira, 16 de Outubro de 2008

Animais


Tratamento dado pela BM aos trabalhadores bancários esta manhã na Pça da Alfândega (POA).
Há quem diga que o diabo estava presente. Isso eu não sei, mas o Cel Mendes o representou muito bem: fez questão de estar lá em carne, osso e covardia.
Bancários e bancárias foram ferid@s.

Fotos de Caco Argemi









Sexta-feira, 26 de Setembro de 2008

Dessa vez foi demais


do RS Urgente:


"Ando para frente e não olho para trás"



Já se tornou uma máxima do discurso político pasteurizado e embalado por marqueteiros dizer que o negócio é seguir em frente e não olhar para trás. O pressuposto é que essa idéia seja do agrado do senso comum e da média dos eleitores, que teriam uma alergia crônica em relação ao passado e à memória. A candidata à prefeitura de Porto Alegre, Manuela D’Ávila (PCdoB), repete essa ladainha em entrevista hoje ao jornal Zero Hora. Indagada sobre a presença de aliados políticos do ex-governador Antônio Britto em sua chapa, a candidata afirmou: “Eu vivo em 2008, ando para frente e não olho para trás”. Foi mais longe e emendou: “Quando o PMDB governou o Estado (1995-1998) eu ainda não votava”.

É constrangedor ver esses "argumentos” serem proferidos por representantes de partidos de esquerda. O desprezo pelo passado e pela memória, diga-se a bem da verdade, é uma praga que viceja hoje em vários partidos (inclusive o PT). Em nome do pragmatismo eleitoral mais rastaquera, repete-se essa tolice como se fosse uma pérola de sabedoria. O que, afinal de contas, significa dizer, com orgulho: “eu não olho para trás”? Pior ainda, o que significa para alguém de esquerda dizer isso? Entre outras coisas, significa desprezo pela memória, pelo passado e pela história. Apresentar a idéia de “seguir na vida sem olhar para trás” como uma espécie de filosofia de vida e de regra de conduta política é algo muito menos inocente do pode parecer. Quem vive só olhando para frente e não olhando para trás não tem compromisso com a experiência e com a história, apenas com o próprio umbigo.

O PC do B pode justificar a aliança com o PPS em Porto Alegre com argumentos menos constrangedores. Basta dizer (como vem fazendo em alguns momentos) que o PT faz alianças com o mesmo partido em outros lugares. Não precisa jogar a memória na lata do lixo. Na verdade, é um argumento igualmente frágil, pois está baseado na idéia de que um erro justifica outro, mas, ao menos, revela alguma consideração pela história. O PT já cometeu muitos erros em sua história. Um deles foi namorar com a máxima que prega: “para derrotar o inimigo é preciso usar suas próprias armas”. O problema da aplicação desta máxima é que, quando se usa as mesmas táticas e práticas do inimigo, corre-se o sério risco de ficar parecido com o adversário. Essa história é bem conhecida. Seus resultados também.

Com todo o respeito que merece, Manuela D´Ávila poderia aplicar ao seu próprio discurso sua proposta de “Diálogo de Gerações”, que prega o respeito e a valorização da experiência e do passado como uma condição necessária para olhar o presente e o futuro.